POR QUE NÃO O JALECO BRANCO NOS BONECÕES DE AR?

bonecão

 

Sabe aqueles bonecões promocionais de ar comprimido, que ficam de chamariz na frente de alguns comércios de bairro? Estou pensando em colocar um na calçada do meu consultório. De jaleco branco e estetoscópio no pescoço, simpaticão como ele só. Não ria, por favor. Eu nunca falei tão sério.

Com essa crise mais crônica do que todas as piores doenças juntas, precisamos sobreviver da mesma forma como sobrevivem quaisquer outros honestos e bem intencionados prestadores de serviços. A diferença entre um excelente médico e um ótimo mecânico, além do desnível social normalmente observado, é que a nossa “rebimboca da parafuseta” fica dentro de um organismo, e não em um motor. E quem é bom no trato de rebimbocas orgânicas tem mais é que se valorizar e buscar a merecida visibilidade. Sem dramas de consciência. Temos de disponibilizar nossos préstimos de maneira não apenas objetiva, mas também original. Cada vez mais original, se quisermos nos destacar em meio a um imenso e competente exército de bons profissionais labutando por um lugar ao sol.

Já comentei com meus colegas sobre esse projeto. Alguns deles falam em agressão à ética médica, consideram a ideia aberrativa e promocional demais para a natureza da nossa profissão. Mas argumento: o fato de ter um bonecão de ar comprimido em frente ao meu consultório me torna um profissional menos sério, menos qualificado ou menos comprometido com a idoneidade no exercício do ofício?

É muito bonitinho e elegante uma plaquinha discreta, em aço escovado ou vidro jateado, na recepção de uma clínica projetada por escritório de arquitetura. Concordo que é bem mais “clean” e condizente com a nossa nobre atividade. Só que é quase inútil, não cumpre a função de sinalizar e divulgar. Ninguém acha estranho um imenso muro pintado com “Funilaria do Tião – a 200 metros” e com uma seta vermelha apontando a direção do estabelecimento. Mas se eu coloco uma tabuletinha de nada escrito “Psiquiatra – logo ali”, vão querer me internar. E a comunidade médica da cidade vai entrar com pedido de cassação do meu CRM.

Entendo que o mesmo se aplicaria a outros profissionais da saúde, como os dentistas. Uma clínica odontológica poderia muito bem ter um molarzão de ar comprimido bailando pra lá e pra cá na fachada, com raiz e tudo, bem branquinho para chamar bastante a atenção. Ou quem sabe um sorrisão gigantesco, tipo aquele bocão dos Rolling Stones, porque é isso mesmo que as pessoas buscam quando vão tratar dos dentes.

Nos Estados Unidos, é corriqueiro ver médicos promovendo verdadeiras campanhas publicitárias sobre seus serviços. Normal. Só que aqui é feio, apelativo, dá a impressão de estar se matando cachorro a grito. Mas, afinal de contas, de onde vem essa equivocada noção de que o nosso sapato branco deve ter sempre salto alto?

 

Esta é uma obra de ficção, não refletindo necessariamente a opinião do autor.

 

© Direitos Reservados
Imagem: afinflaveis.com.br

 

Anúncios

HOMENAGEM À VÓ TINHOCA

tinhoca

 

A Vó Tinhoca era uma velha muito da xexelenta e da maledicente. Do tipo ranzinza que ronca e fuça, que estorva e bisbilhota onde não é chamada, onde não é desejada e muito menos útil. Seria em seu tempo o que hoje designamos “mala”. Uma mala gasta, feia e abarrotada de tudo o que possa existir de odioso na face da terra.

Nascida Antônia Leocádia di Piero Vantruz, nossa homenageada viveu 97 longos anos a serviço único da fofocaiada rasteira, incumbência a que se entregava com prazer e sofreguidão. O boato era sua vida e sua cachaça, e a esse vício era de tal forma dedicada que abdicou de marido e filhos para fazer dele o seu sacerdócio.
Filha de Maria, ostentava uma beatice de fachada, mas que lhe valia certo verniz de honorabilidade e lhe franqueava o ingresso a alguns salões mais exclusivos e bem frequentados, de onde retirava valiosa matéria-prima para produzir injúria.

Não obstante a manipulação sacrílega que fazia da religião, tinha lá seus santos no oratório doméstico, e era bom mesmo que tivesse para se aliviar de tantas e pesadas culpas. Mas quem conheceu a velha a fundo jura que ela abusava de São Tomé e de São Jorge para coisa bem diversa da remissão dos pecados e do alívio da consciência. Na verdade, apoquentava as figurinhas de gesso com promessas para descobrir segredos de alcova da vida alheia, escândalos iminentes, calotes insuspeitos, amores clandestinos, passos em falso de figuras ilibadas da sociedade jacutirense. A delícia da desdentada era dar com a língua na banguela, destilando febrilmente seu veneno nas casas de comadres, em infindáveis diz-que-diz-ques guarnecidos por suspiro e suco de pitanga. A velha era uma “véia”, e é preciso que se diga que entre velha e “véia” há uma colossal diferença de sentido. Quem é da região do Vale do Jequitinhonha, berço e túmulo de Tinhoca, sabe bem do que estou falando.

O fato é que nossa heroína ia aniquilando reputações de casa em casa, os olhos esgazeados e a boca murcha, com batom fora do contorno, tremendo de gozo a cada vez que explodia a “bomba” da ocasião no ouvido alheio. Feito o serviço, ria seu riso rouco e desafinado de bruxa da carochinha, sacudindo os peitos derrubados debaixo da papada gorda e cheia de dobras.

Tamanha era a ânsia em passar adiante a fofoca fresca que ela, com a jugular pulsando e a respiração entrecortada, respingava doses cavalares de saliva sobre o ouvinte, o que lhe granjeou, além da mais do que justificada fama de candinha, a alcunha de “Tinhoca Chuvisco”. Dependendo do teor da novidade, Tinhoca era um verdadeiro aspersor, capaz de estancar a seca do sertão com meia hora de mexerico.

Dito isso, você, leitor complacente, me pergunta: “Sim, mas e daí?”
E daí que era só isso o que eu queria, pintar um retratinho pálido e despretensioso da velha Tinhoca, essa verdadeira indústria de calúnia e difamação. E homenageá-la falando um pouco mal dela, que é o que ela mais gostava de fazer com todo mundo. Mas, pelo amor de Deus, que isso fique só entre a gente, heim? Não vai espalhar.

© Direitos Reservados

ASNOS VOLANTES: SEU FIM ESTÁ PRÓXIMO

google-self-driving-car

 

Os carros autônomos, aqueles que não precisam de motorista, já estão rodando por aí. Segundo matéria de capa da Veja da semana passada, que aprofunda o assunto e suas consequências, eles serão aproximadamente 10% da frota mundial até 2035. E quando produzidos em massa deverão chegar já elétricos, o que será uma dupla revolução.

Tudo será muito diferente. Da forma de condução à comunicação.
As campanhas publicitárias terão que mudar completamente seus approachs aspiracionais para emplacar a novidade. O prazer de dirigir será substituído pelo prazer de não dirigir. Ninguém mais irá chamar alguém de “bração”, “asno volante” e que tais. Afagos como “fdp”, “aí, navalha”, “volta pra auto-escola” não serão mais revidados pois 100% dos motoristas robôs tem, sim, sangue de barata. E os ciber-pilotos assimilarão os desaforos com sua característica frieza original de fábrica.

Dependendo do conforto do carro, o caminho para o motel pode muito bem virar o próprio motel. Dependendo também, é evidente, do grau de escuridão do insulfilm – que poderá ser complemente negro, já que o motorista não precisará enxergar o que vem à sua frente.

Álcool e direção irão se misturar perfeitamente e se dar às mil maravilhas, deixando o bafômetro em embriagante obsolescência. Ô dó. O coitadinho vai começar a beber pra esquecer os dias de glória e de extraordinária arrecadação de multas.

Outros prováveis desdobramentos desafiam a imaginação. Será um verdadeiro aborto da natureza conseguir vender uma pick-up off-road para um cowboy do asfalto ou para um trilheiro de verdade. Onde é que os criativos das agências de propaganda irão se pegar, e para apregoar exatamente o quê? Adrenalina? Aventura? Emoção? Qual será o arquétipo utilizado para que o sujeito se encante? Com que argumentos rebaixar o fissiurado em 4×4 para o banco de passageiro e ao mesmo tempo despertar nele o desejo de compra?

Tem também a questão dos seguros dos veículos. Se os acidentes param de acontecer, a seguradoras vão fechar. Se continuam, quem serão os novos culpados?

O que já se pode antecipar como certo é que o celular estará liberado ao volante (se é que continuará existindo volante, que não servirá para coisa alguma), e nenhum guarda de trânsito ou amarelinho poderá falar nada se flagrar um condutor digitando mensagens em cima de um viaduto, a cento e quarenta e tantos por hora. Aliás, os radares de velocidade irão enfim requerer a tão sonhada aposentadoria. Bom, pelo menos para quem é motorista, ela é sonhada, sim.

É lógico que a mítica do carro como símbolo de status social continuará prevalecendo, seja ele autônomo ou não. Um carro mais básico poderá abrigar uma turma fazendo uma mãozinha de truco enquanto se encaminha ao canteiro de obras; já as luxuosíssimas limousines levarão damas quatrocentonas, com seus imensos chapéus, às corridas no Jockey. Porém Jarbas, o chaufeur da família Bulhões, perderá o emprego. A menos que continue a serviço do clã para abrir e fechar portas.

 

 

© Direitos Reservados
Imagem: http://www.autoguide.com

 

TERCEIRIZANDO A TERCEIRIZAÇÃO

woman-on-the-beach

 

 

A terceirização chegou para ficar. E, com ela, surgem algumas questões práticas bastante curiosas. Por exemplo, se uma empresa tem o direito de contratar meus serviços como terceirizado, eu também tenho o direito de terceirizar o que iria fazer, pois a lei vale para todos.

Vamos ilustrar com uma situação hipotética. Imagine que eu ganhe quatro mil dinheiros, mas prefira contratar um desempregado por dois mil dinheiros para fazer o serviço no meu lugar, ficando portanto com os outros dois mil dinheiros para mim. Pode ser que, com essa grana, eu viva muito bem, sem precisar trabalhar.

Digamos que isso seja uma “reterceirização”, ou algo parecido. Eu agencio e supervisiono um burro de carga para “limpar a caixa de gordura”, enquanto fico estirado em minha rede comendo pamonhas de Piracicaba o dia todo.

É claro que eu teria que responder pela qualidade do serviço. Se o “quarteirizado” por mim não estiver entregando o que eu entregaria, substituo por outro, depois por outro e por quantos sejam necessários, até conseguir alguém que produza o exigido no prazo desejado. Afinal de contas, a empresa que me contratou só o fez porque conhece o meu trabalho ou teve referências dele.

Por sua vez, é justo que esse “quarteirizado”, se quiser, subcontrate um “quinterizado” ainda mais ferrado que ele no mercado de trabalho, pagando – por exemplo – mil dinheiros. E que este, igualmente por uma questão de justiça, também tenha a opção de arrumar um “sexterizado” que o substitua, e que fique feliz da vida com quinhentão por mês. Sim, quinhentos dinheiros, menos que um salário mínimo. À parte toda a questão legal – ou ilegal – envolvida, a tramoia é perfeitamente plausível. Ainda mais hoje, com profissionais de TI pós-doutorados prestando concurso para ascensorista.

Amparada por lei, a terceirização vem ganhando terreno e tende a se disseminar por setores inimagináveis. Como escrevinhadores de diletantismo e congêneres. Este texto, aliás, é lavra de um terceirizado. Caso não tenha correspondido às suas expectativas, entre em contato com o responsável por este espaço, que tomará as devidas providências.

 

© Direitos Reservados

 

EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO

artistic-clock-face

– Essa sua matemática é muito esquisita. Muito, muito estranha.
– Esquisita nada. Pensa comigo: quando começa o horário de verão, você é surrupiado em uma hora, e ela não vai voltar nunca mais.
– Mas quando o horário acaba, a hora retorna pra você, pois os relógios são atrasados em uma hora e tudo volta a ser como antes.
– É isso o que você não está entendendo! Como é que eu vou explicar?… Quando adiantaram o relógio, no começo dessa porcaria que não economiza energia elétrica nenhuma, somos tungados em uma hora. Até aí tudo bem?
– Sim, lógico.
– Então, e lá em fevereiro, quando essa hora é devolvida, não é que você “ganha” uma hora. As coisas simplesmente retornam aos eixos. O certo, para que houvesse justiça, seria atrasar duas horas. Uma para tudo voltar ao normal – e até aí, zero a zero – e outra pela hora que te roubaram em outubro, meu velho!!! Será que é tão difícil assim perceber a diferença? A cada ano, te subtraem uma hora de vida, que vai ficar eternamente na saudade. Simples e aritmético. Conta de mais e de menos.
– Certo, e aonde você tá querendo chegar?
– Ao Governo Federal, com uma ação na justiça. Só minha ou coletiva, depende de quantos entenderem o raciocínio e comprarem a ideia.
– Ah, vai ser difícil você explicar esse negócio aí…
– Olha, nem eu sei direito quantos horários de verão já foram enfiados goela abaixo da população. Vamos supor que tenham sido 20 até hoje. Então haveria um banco de horas. Para cada horário de verão que entrar em vigor, o cidadão teria direito a uma hora de crédito. Livre, sem trabalhar, pra ele usufruir como quiser. E que ele pode gozar a cada ano ou ir acumulando para tirar um monte delas de uma vez só. Compreendeu? Sempre deixando claro que essa hora adicional é além daquela oficial, que já retorna de qualquer jeito quando acaba a brincadeira.
– Espera aí, espera aí… para, para tudo, tá dando um nó na cabeça.
– Não tem nó nenhum, é simplesmente óbvio, as pessoas é que ainda não perceberam!
– Tá errado, cara. Quando começa, você fica com um dia de 23 horas. Mas quando acaba, você tem direito a um de 25. Justiça total, tudo certo.
– Ledo engano! Quando acaba, você só volta a ter um de 24, que é o que cabe a todos nós desde que o mundo é mundo. Aqueles 60 minutos que sequestraram não serão resgatados.
– Jesus amado, eu não vou ficar discutindo com você. Daqui a pouco é uma hora perdida – e, nesse caso, perdida mesmo – com uma discussão que não leva a nada. Precisa estar bem desocupado pra ficar pensando nessas coisas…
– Errou de novo, queridão. Sou ocupado até demais. Pode reparar, todo mundo reclama da falta de tempo. Aí chega um cidadão e decreta que, de outubro a fevereiro, você tem menos tempo ainda. É arbitrário e injusto.
– Então não acerta o seu relógio. Pronto, encerra o assunto.
– Mas aí serei só eu o errado. Fico descompassado do rebanhão. Agora, se todo mundo desacatar, vamos ganhar essa parada. Podemos tomar de novo o poder do tempo! Ou, pelo menos, exigir a implantação do BHV – Banco de Horas de Verão… Se bem que, neste ano, não adianta mais. E, para entrar em vigor no ano que vem, a proposta do banco tem que ser votada até o fim de novembro.
– É, mas estamos no horário de verão. Brasília esvazia mais cedo, os deputados não são de ferro e também querem curtir sua praia e sua piscina. E olha, se for correr abaixo-assinado na rua, não esquece do protetor solar. Fator 50, no mínimo.

 

© Direitos Reservados

 

CAÇAMBA!

caçamba

Estou com uma caçamba de 5 metros cúbicos estacionada na frente da minha casa. Coisa mais linda, um verdadeiro mimo, com entulho até a boca.

Resolvi derrubar uma parede para ampliar a sala. Empreitada teoricamente simples, rápida e barata, mas que demandou a locação do compartimento por uma semana.

Tudo o que você for erguer ou botar abaixo, por mais trivial que seja, abarrota uma caçamba em meia hora. Às vezes em menos tempo. É quando você se dá conta de que a locação de uma semana, o período mínimo exigido pelas locadoras, foi consumida em quinze minutinhos. Só que não interessa, você vai morrer com a locação de uma semana: 250 reais. Com o agravante de que é preciso não perder tempo para tirar a montanha de lixo da sua porta, ligando de novo para o disk-caçamba e implorando por todos os santos que levem embora o quanto antes a geringonça cheia e tragam outra vazia, pois o entulho é maior que o previsto e precisa ser removido para não atrasar a obra e não empacar o pedreiro.

Há motivos para supor que a locação de caçambas de entulho seja o melhor negócio de que se tem notícia, desde o advento do big bang.

A caçamba é indestrutível. Se a ogiva de um míssil nuclear explodir em cima de uma delas, o míssil vai levar a pior. Não faz muito tempo, aqui perto de casa mesmo, um motorista morreu ao colidir com uma caçamba estacionada.

A conservação tem custo mínimo (resume-se à limpeza interna e à substituição periódica dos adesivos de sinalização refletivos). Sinalização que, aliás, acaba virando outra fonte de renda – funciona como mídia de divulgação do próprio serviço de caçambas e também produtos de terceiros. Elas ficam o tempo todo nas ruas e são móveis, não havendo legislação específica que regulamente a veiculação de propaganda nesse tipo de suporte.

Mesmo com a imensa volatilidade da economia, o negócio da caçamba vai de vento em popa. Aconteça o que acontecer. Se a construção civil aquece, não há caçamba que chegue para atender a demanda. Se a temporada é de vacas magras, o jeito é reformar ou improvisar um puxadinho. E mais uma vez lá estará ela, impávida, verdadeiro monolito à frente de mansões ou de casebres.

Em todo o nem sempre rentável ciclo da obra, haverá um dono de caçamba com o bolso cheio e o sorriso largo. Imagine só uma empresa locadora que tenha uns quarenta anos de mercado. Essa mesma empresa poderá locar suas caçambas para construir uma casa, para reformá-la e também para remover os escombros de sua demolição. Isso sem falar da receita adicional com a venda do entulho para empresas de reciclagem. Não tem como não dar certo um negócio assim.

Tudo passa, tudo é destruído, tudo vira lixo. E sempre haverá alguém desesperado, com um telefone na mão, atrás de uma caçamba para tirá-lo do meio.

 

© Direitos Reservados
Imagem: http://www.alugueldecacambasbelempa

 

ÍNDIO NÃO QUER APITO

“Um índio descerá de uma estrela colorida, brilhante
De uma estrela que virá numa velocidade estonteante
E pousará no coração do hemisfério sul
Na América, num claro instante
Depois de exterminada a última nação indígena
E o espírito dos pássaros das fontes de água límpida
Mais avançado que a mais avançada das mais avançadas das tecnologias
Virá que eu vi”
(Caetano Veloso)

ovni

O OVNI de aproximadamente 10 hectares de diâmetro foi descendo lentamente sobre Porto Seguro, no mesmíssimo lugar onde atracou a esquadra de Cabral. Embasbacando os turistas dos resorts. Atrapalhando orgias e ménages à trois. Fazendo despencar das prateleiras vodkas russas e uísques 12 anos. Interrompendo transações espúrias com dinheiro público à beira de piscinas.

E disse o neo-pajé, de sua nave-oca:

O valoroso povo indígena já ocupou este seu mundo centenas de vezes. A última delas foi quando vocês chegaram, em 1500. Depois passamos a reencarnar em planetas mais evoluídos, como recompensa ao sofrimento suportado na tentativa de nos escravizar. Pelo respeito da nossa raça ao equilíbrio da natureza e ao convívio pacífico, evoluímos muito mais rápido do que vocês. Obedecendo à inescapável lei da ação e reação, da causa e do efeito, viemos retomar a posse do que sempre foi nosso, resgatando assim a dívida que vocês contraíram com nossos antepassados. Rendam-se, entreguem-se sem resistência. Será menos doloroso e mais inteligente de sua parte.

Vocês encantaram nossos antepassados com espelhinhos, pentes e apitos, passando uma rasteira histórica em quem, na sua pureza, não tinha como se defender. Chegou a nossa vez de deixá-los abobalhados com as nossas bugigangas – uma ou outra maquininha barata de teletransporte intergalático, ou coisa ainda mais rasteira, pois vocês são muito primitivos e se contentam com qualquer idiotice.

Enquanto ficam feito palermas teletransportando-se de um lado a outro, rindo-se de se matar com essa reles porcaria, nós seduziremos suas mulheres e traçaremos uma Tordesilha básica e provisória, só para fincar nossa bandeira enquanto milhões de nossa raça não chegam para colonizá-los e abduzi-los para o buraco negro mais próximo. Essa nova versão do Tratado de Tordesilhas dividirá seu território em duas partes, uma nossa e a outra também.

Como já disse, o buraco negro será o merecido destino de vocês. Não seremos hipócritas, com a falsa bondadezinha de demarcar reservas para preservar da extinção seu povo degenerado. Gente da sua raça não vale o ar que respira. Agora, conservem-se em fila para serem marcados holograficamente e aguardarem em silêncio a hora da abdução.

 

© Direitos Reservados