PERALTA, POR ONDE ANDAS?

peralta

 

Faltam peraltas na praça. E nas ruas, nas favelas e alphavilles, nas escolas, nos shoppings, academias, quermesses, banheiros públicos, desfiles cívicos, confessionários de igreja e onde mais haja espaço e oportunidade para uma boa e bem arquitetada traquinagem.

O mundo é cinza e tedioso sem um peralta aprontando das suas. Mas tomou chá de sumiço, o danado. O que se vê é, de um lado, uma molecada predominantemente bem-intencionada, e de outro os delinquentes assumidos – tipo os hackers, os praticantes de bullying e os que dão almôndega com veneno pra cachorro. Fora isso, temos os nichos de nerds e outros esquisitos em suas órbitas particulares. Mas o peralta legítimo – aquele gurizinho astucioso, vivaldino, que comete sua maldade de salão de um jeito estudado e atrevido, esse não tem nem pra remédio.

Não é de hoje que o mundo anda escasso de levados. De levados e de levados da breca, seja lá qual for a diferença entre uns e outros. Aquele menino que pegava no telefone e passava trote perguntando se tinha um fusca gelo parado na frente da casa. Brincadeira de fim melancólico. O fusca, pobrezinho, saiu há décadas de linha, e o trote ficou na saudade depois do identificador de chamadas. Aliás, trote (além do literal sentido do andar dos equinos) está denotando unicamente o rito de iniciação nas Universidades – que, por sinal, também e felizmente anda caindo em desuso. Até mesmo o traquinas passador do trote já deve estar na terceira idade, se conseguiu sobreviver até agora. Não, peralta, esse mundo não é mais para você. Foi-se o seu tempo, garoto de kichute.

“Nossa, como esse menino é arteiro!”. Isso é frase de tia Dirce, Matilde, Odete, Leonor. Tente lembrar da última vez em que você escutou isso, se é que já escutou. Sem chance, caso tenha nascido depois de 1980 e não é baby boomer ou geração X.

O peralta ficava de castigo, levava cintada e safanão, tinha mesada suspensa. Tomava bronca, pito, sermão e lambança. E estava sujeito a pescoções quando pego de surpresa escrevendo “lave-me” com o dedo em vidro de carro sujo.

Um autêntico travesso com T maiúsculo prendia o botão da campainha com durex e saía correndo. Colava moeda com araldite no asfalto e ficava na moita rachando o bico, vendo os tontos unhando o chão. Pregava aviso de “sou bobo” nas costas do uniforme dos colegas. Prendia carta de baralho na roda traseira da bicicleta para imitar barulho de moto. Esse é o pá virada genuíno, tão em falta.

Talvez os últimos exemplares da espécie tenham ido dessa pra melhor em 1999. Era uma rede de supermercados que, sabe-se lá o motivo, tinha o nome de Peralta. E que acabou sendo engolida pelo grupo Pão de Açúcar.

 

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Imagem: strangecosmos.com

ALBERTO E AYRTON

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– Santos Dumont! O senhor é o Santos Dumont, né?
– Em carne e osso. Quer dizer, sem carne e sem osso. Você quem é?
– Senna. O Ayrton, sabe?
– Sena? O rio da minha lindíssima Paris?
– Não, não. O rei de Mônaco. Béco, para os íntimos. O piloto, tricampeão da Fórmula 1. O namorado da Adriane Galisteu…
– Agora, puxando pela memória, acho que já ouvi falar de você, sim. Faz pouco tempo que desencarnou, não é?
– Vinte e três anos… o senhor chama isso pouco tempo?
– Ah, foi outro dia mesmo. Pra quem já está aqui desde 1932, você nem gelou a carcaça, meu rapaz. Lembro da minha hora como se fosse hoje. Estava no Guarujá, chateado com o que andavam fazendo com a minha invenção, e resolvi que não queria mais ficar lá embaixo. Aliás, sempre me senti mais à vontade aqui em cima.

 

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– Pois é. Se naquele dia fatídico já existisse um cockpit feito com material de caixa preta, talvez eu estivesse salvo. Difícil me acostumar com a ideia, vim pra cá cedo demais.
– Deixa de se lamentar, isso só piora as coisas. Mas me diz, como é que me reconheceu por essas bandas?
– O chapéu, o terno, o bigode… como não poderia deixar de ser, é claro que o senhor é nome de aeroporto no Brasil. Um dos maiores que temos por lá.
– E você deve ser nome de rodovia.
– Sim. Mas o senhor é mais herói que eu, e é nome de estrada também. Duas, por sinal. Além de escolas, ruas, praças. Tem até uma cidade chamada Santos Dumont.
– É, onde eu nasci. Chamava-se Palmyra, depois rebatizaram pra me homenagear. Fiquei sabendo por alguns irmãos espirituais.
– Então. Cidade com o meu nome, por enquanto, não tem nenhuma.
– Meu caro Ayrton, não é só você que guarda mágoa desse país ingrato. Outro dia mesmo estavam jogando truco por aqui o Duque de Caxias, o Dom Pedro I e o Tiradentes, amaldiçoando as últimas gatunagens de Brasília. Diziam que se soubessem que ia dar no que deu, não teriam movido uma palha.

 

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– Sabe de uma coisa, meu jovem? Me dá nos nervos ficar a eternidade toda vendo esses anjos, com essas caras gordas e barrocas, batendo asinha pra lá e pra cá, sem rota de voo definida. A coisa aqui ainda está nesse tempo, de asinha nas costas. Até mesmo o avião, se você for ver, já é algo bem ultrapassado. Inventei essa traquitana em 1906. Tudo bem que o 14-bis era feito de seda e bambu e que a tecnologia aeronáutica evoluiu muito daí pra frente, mas é arcaico demais como meio de locomoção. Não sei se sabia, mas eu, o Einstein e o Steve Jobs estamos concluindo um protótipo de transporte na velocidade da luz.

 

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– A Asa Norte e a Asa Sul. Tudo pelos ares, num ataque-surpresa. Que me diz, Ayrton?
– A sua raiva de asa é grande mesmo, Seu Alberto.
– Temos que destruir tudo, pra não correr o risco de sobrar algum corrupto vivo. Sabemos que nessa operação-limpeza vamos matar um monte de pessoas inocentes, mas os bons viriam para o céu de qualquer jeito. E vão dar graças ao Pai por se livrarem daquele inferno.
– Isso, com certeza.
– Pra dar tudo certo, vamos precisar de um piloto experiente e habilidoso. É aí que você pode ajudar. Afinal, velocidade é o seu negócio. Ainda que a velocidade, no caso, seja a da luz.
– Nossa, deve ser demais essa sensação. E eu achando, lá embaixo, que 350 por hora era o máximo da adrenalina.
– E então, podemos contar contigo?
– Deixa eu amadurecer a ideia, a gente vai se falando. Me dá seu chapéu de lembrança do nosso encontro?
– Só se você me der seu capacete.

 

 

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PIADABRÁS

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Ilustração: Marco Fraga

Piada, anedota ou patacoada, como diziam os mais antigos. Chame como quiser. O que importa é que todos saibam que as piadas não nascem do nada, sem pai nem mãe. Elas existem com o propósito definido de anestesiar o populacho e há uma superestrutura que as orquestra, diretamente subordinada aos altos escalões da administração pública federal. Uma espécie de serviço de inteligência, com a diferença de que não há realização de concurso para provimento de cargos, sendo seus integrantes contratados com base nos critérios de notória competência e especialização. Digo isto de cátedra, pois sou parte desta indústria. Desta desconhecida e desvalorizada indústria. Sim, amigos, as piadas têm autores e os autores têm cotas de novas piadas a conceber, da mesma forma que os boias-frias têm suas cotas diárias de cana para cortar.

Não estou autorizado a revelar a localização geográfica da nossa organização. Posso afirmar apenas que ela funciona nas antigas dependências de uma desativada autarquia nos arredores de Macapá, bastante utilizada para a tortura de subversivos nos tempos da ditadura militar. São sete pavimentos que funcionam em três turnos, servidos por elevadores de última geração, ar condicionado central, serviço de buffet e assim divididos:

1º andar: Piada de salão;
2º andar: Piada suja;
3º andar: Piada de papagaio;
4º andar: Piada de humor negro;
5º andar: Piadas de português, de turco, de sogra e de loira;
6º andar: Adivinhas, do tipo o que é o que é. De 1982 a 1995 tínhamos dentro deste pavimento o setor “Qual o nome do filme?”, mas a partir de 1996 a fórmula se desgastou e a subdivisão foi extinta.
7º andar: Setor de Reciclagem – piadas velhas são recolhidas, reformadas com outra roupagem e novamente espalhadas. É um valioso dispositivo em tempos de entressafra, quando há escassez de fatos engraçados que inspirem a renovação do anedotário.

Engendrada a anedota, o piadista aciona um botão verde ao lado do seu monitor. Em não mais de 40 segundos aparece, movido a patins, um carrancudo do setor de Controle de Qualidade, para aferir se a piada tem ou não o nível mínimo de graça para que se espalhe. Os carrancudos são em geral pessoas nas quais o riso dificilmente aflora – como mutilados de guerra, deprimidos, pacientes bipolares, torcedores do América e gente oriunda de outras categorias de infelizes. Um risinho de canto de boca dessa turma já garante a passagem da piada para as duas próximas etapas de produção: o burilamento e a redação final.

Até há pouco tempo dispúnhamos um número quatro vezes maior de contadores, funcionários que saem às ruas para espalhar as piadas recém-paridas, infiltrando-se em rodas de bar, quadras de bocha, cafés, clubes da terceira idade e outros pontos estratégicos de propagação. Com a internet o processo mudou bastante, pois temos bancos de dados gigantescos contendo milhões de mailings com bilhões de nomes, o que faz com que a piada se propague pelo planeta em dez minutos ou menos – dependendo da graça, do arsenal de anti-spams dos destinatários e das mensagens de caixa postal cheia.

Ao contrário do que se poderia supor, nossa rotina não tem nada de engraçada. Ganhamos mal, mas em compensação não nos divertimos nem um pouco. Pegue uma piada clássica, como aquela do avião caindo com um brasileiro, um americano, um francês, um italiano e um português, na qual o lusitano salta com um frasco de “Para Queda de Cabelos”. Uma joia desse quilate é resultado de elaboração minuciosa, onde se promovem brainstorms que reúnem até altas horas três, quatro ou até mais piadistas, em mesa redonda e servidos por porções de mandioca frita e doses cavalares de conhaque. Tal rotina, dia após dia, desgasta, adoece e afasta por invalidez. Mas não há outra alternativa.Há décadas que a sociedade não gera por si mesma quantidade suficiente de piadas, por falta de tempo e inspiração. E o baixo estoque delas é, para o sistema público de saúde, um problema tão grave quanto o déficit de sangue nos hospitais.

Recentemente foi descoberta uma fraude na liberação de um lote de novas piadas, que estavam prontas para serem espalhadas porém ainda não tinham passado pelo Controle de Qualidade. Um grupo de piadistas inescrupulosos rendeu à força o bipolar de plantão, responsável pelo OK final, e enquanto um dos criadores lia para ele as piadas os demais faziam cócegas em suas axilas e pés para forçar o riso. O escândalo, no entanto, foi abafado e os envolvidos julgados por tribunal interno, que decidiu pelo afastamento temporário de dois deles: o que manipulava a pena de ganso na axila esquerda da vítima e o que contava, com requintes de crueldade, as piadas em alto e bom som.

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DINHEIRO EM ESPÉCIE

Stages in human evolution

Espécie em extinção (Montantis sumidus)
Por incrível que possa parecer, a espécie em extinção é a mais facilmente encontrada na natureza. Em suas inúmeras variantes, tudo leva a crer que seja originária do Brasil – já que aqui encontra as condições ideais para se reproduzir. Sua ocorrência, entretanto, é comum nos cinco continentes, em ecossistemas capitalistas, socialistas, democráticos, anárquicos ou ditatoriais.

Espécie ululante (octópode da família Moluscus corruptum)
Tem seu habitat natural em sítios de Atibaia, onde alterna sua presença entre os lagos de pedalinhos, antenas de celular da Oi e adegas bem fornidas. Como todos os anfíbios de sua ordem, mostra-se perfeitamente à vontade quando está com as mãos molhadas mas também adapta-se com facilidade a solos arenosos da indústria da seca, desde que não lhe falte o necessário suprimento alcoólico.

Espécie aécica (Nevis imundícius)
Defende-se dos inimigos naturais atacando vorazmente as reservas públicas, embora afirme que jamais tenha feito fortuna na política. Suas características camaleônicas, que pemitem que se camufle para confundir seus predadores, fazem dele um autêntico exemplar do gênero tucanus peéssedebensis, praga que assola o planalto central.

Espécie anta (Dilmatis butijaniensis)
Tipo de jiboia que hiberna anos enquanto digere lentamente o erário. Animal de estranhos hábitos, tem a peculiar característica de assinar sem ler. Ainda que tenha desenvolvido uma forma rudimentar de fala ao longo de milênios, quando abre a boca de incisivos avantajados só balbucia frases sem nexo.

Espécie morcego (Foratêmeris dráculum)
Dá o bote (ou o golpe, como insistem alguns) sempre à noite e entre os jaburus. É conhecido o seu caráter misógino, por não admitir em seu bando nenhuma fêmea. A criação de mesóclises de grande efeito retórico, para posterior revoada na mídia, é o passatempo predileto desse sorrateiro e anacrônico exemplar do gênero Vices nocomandus.

Espécie mula (Asnus laranjínicus)
Leva e traz no lombo calejado malas e mais malas de dinheiro vivo. Sua reduzida massa encefálica talvez explique o fato de jamais conhecer o teor daquilo que transporta. Faz parte do baixo e médio escalão da cadeia alimentar e acabou por se adaptar à reprodução em cativeiro, uma vez que sempre acaba cumprindo pena no lugar daqueles que encomendaram seus serviços de delivery.

 
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Imagem: dailymail.co.uk

BANHEIRO RIMA COM DINHEIRO

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Ele, particularmente, não via sentido nenhum nessa história de ler no banheiro. Seja no fato de ir ao WC para ler, ou de ler enquanto não se resolvem pendências fisiológicas de naturezas diversas.

Ainda que até hoje se desconheça exatamente o porquê de se transformar vaso sanitário em poltrona de biblioteca, a verdade é que o hábito parece inerente à raça humana. Dessa constatação, veio a pergunta: como ganhar dinheiro com isso?

Uns quatro dias depois apareceu a resposta, no banho, ao ensaboar o sovaco esquerdo. “Lógico!, gritou ele. Histórias no papel higiênico!!!”

Enquanto negócio, a coisa era realmente promissora. Não só pelo ineditismo do produto, mas também pelo previsível aumento desenfreado do consumo. Se, para uma pessoa, cinquenta centímetros de papel é medida suficiente para determinada função, com a novidade a metragem média poderia multiplicar-se de maneira espetacular, dependendo do interesse do usuário e da capacidade da história em segurar sua atenção.

A “plataforma de leitura” mostrava-se suficientemente versátil para os mais diversos perfis de público. Pessoas não muito afeitas à leitura poderiam adorar charges de dois ou três quadrinhos, mais visuais e com pouco texto. Os amantes de obras-primas da literatura universal teriam à disposição a versão integral do “Dom Quixote” condensada em um rolo de 30 metros, ainda que em letra de bula. Já os praticantes de leitura dinâmica ficariam à vontade para devorar a Encyclopaedia Britannica em uma sentada. Literalmente.

As possibilidades de adequação seriam infinitas. Para motéis, desenhos e fotos pornográficas, relatos picantes e classificados de sexshops e casas de swing. Para asilos, figuras com pontos de crochê e táticas invencíveis no dominó. Para colégios, colas prontas para provas de todas as matérias. Pensou também em uma versão com palavras cruzadas, mas desistiu do intento pela necessidade de caneta e pela fina espessura do papel.

Mais tarde, pesquisando no Google, descobriu que seu lampejo genial não era tão inédito quanto imaginava, nem tão lucrativo quanto parecia. Três ou quatro visionários já haviam se aventurado pela empreitada, sem grande sucesso. Um dos projetos, que chegou a ser implementado nos Estados Unidos no final dos anos 70, contemplava um mecanismo perverso de fidelização do consumidor: a história chegava ao auge do suspense no final do rolo e terminava nos primeiros metros do rolo seguinte, coagindo o usuário à compra de fardos extras. Na época, os gringos acharam que ficariam milionários, mas erraram feio. E estão até hoje enxugando as lágrimas com o estoque encalhado de papel.

 

 

Imagem: geektoypia.com
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LADRÃO PREVENIDO VALE POR DOIS

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Se você pensa que quem arrisca a vida é bombeiro, PM da favela da Rocinha ou dublê do Chuck Norris é porque nunca foi ladrão na vida. Nossa categoria deveria ter direito a adicional de insalubridade, tamanhos os riscos a que nos expomos.

Em nossa estafante labuta, os verdadeiros roubados somos nós, profissionais da contravenção. Estamos o tempo todo a um passo do Instituto Médico Legal, e por ameaças muito mais letais do que a ação da polícia.

Não estou nem aí se deixo ou apago minhas digitais no local do crime. Uso luvas (aliás, duas em cada mão, para a eventualidade de uma delas arrebentar) com a intenção de me precaver de verminoses, dermatites, eczemas, micoses, sarnas, gripes e até mesmo lepra, dependendo do naipe do assaltado que sou obrigado a encarar para ganhar o pão de cada dia.

O mesmo vale para o capuz. Tudo quanto é meliante veste para não ser reconhecido pelas vítimas ou pelas câmeras de segurança, mas para mim isso é o que menos importa. Uso para evitar vírus, especialmente do início do outono até o fim do inverno. E, mesmo no verão, só visto capuz de lã. Vai que a temperatura muda de repente, né? Nunca se sabe, esse nosso clima é cada vez mais louco e a meteorologia não acerta uma.

Quando o assalto é na rua e levo o otário até o caixa eletrônico para sacar o dinheiro da conta, me embrulha o estômago olhar para o visor do equipamento. Aquelas marcas de dedos no vidro, todo engordurado pelo manuseio de milhares de clientes… fico imaginando a orgia de microorganismos que é aquilo, uma explosiva arma química de efeito devastador. O sujeito que sem querer coloca a mão na boca após ter feito o saque leva, junto com o dinheiro, umas duzentas doenças pra casa. E se no visor é assim, quase vomito ao pensar no horror que deve ser o leitor de biometria. A camada de gordura ali justifica uma lipoaspiração ao final do expediente. Arghh!!!

Mas a pior parte vem quando o assaltado entrega a grana pra gente. Nada é mais sujo do que papel-moeda, mesmo não sendo de caixa 2 e nem tendo passado pela cueca de ninguém em Brasília. Eu diria que não há diferença entre manusear uma nota de real e dar um mergulho no Tietê. Sinceramente, não há dinheiro que pague o nojo das bactérias. Comigo o negócio é sem contato manual, por isso já obrigo a vítima a colocar o dim-dim dentro de um ziploc para afastar qualquer possibilidade de contaminação.

Se o assaltado reage e sou obrigado a mandar o dito cujo conhecer Nossa Senhora, eu não descuido: trago sempre na minha maleta de trabalho um traje completo de escafandrista, para evitar ser atingido por gotículas de sangue na hora de estourar os miolos do infeliz. Vai que eu morro infectado. Além do mais, mancha de sangue na roupa dá o que fazer pra tirar.

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SAUDADE DOS MILHÕES*

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Se há uma coisa que não falta para este humilde fardado da Guarda Municipal é experiência. Sou macaco velho, dos idos da radiopatrulha de fusquinha. Já sonhava em trabalhar na polícia desde o tempo em que a minha única munição era bala Chita. Isso lá no Belenzinho, meados dos anos 50. Minha coleção de revólveres de espoleta era famosa em todo o quarteirão. Me desfiz dela aos prantos, ao receber uma proposta irrecusável de um governador do Acre para equipar os coldres daqueles guardas-manequins-fakes vestidos com uniforme policial, que ficavam nas vias expressas e próximos aos camelódromos de Rio Branco.

Lembro como se fosse hoje da Operação Propi-Corn, uma das primeiras de que participei. Os milhões eram escondidos disfarçados de inocentes piruás no fundo de saquinhos de pipoca, servidos sem mãos a medir nas festas juninas da Granja do Torto. Gatunagem da grossa. Chegamos com os cães farejadores e os meliantes engravatados, alguns deles com ridículos bigodes de carvão e remendos nos ternos Armani, foram pegos de surpresa com a propina ainda quentinha, saindo da panela. Dois ou três ainda tentaram, sem sucesso, se evadir subindo pelo pau de sebo. Mas recuperamos os milhões. Não digo tudo, mas a maior parte, já que um terço das espigas acabou virando curau e pamonha naquele malfadado São João brasiliense.

Depois foi a vez de desmantelarmos uma organização criminosa que fabricava e distribuía bafômetros com selos falsos do Inmetro. A ideia dos bandidos era fornecer bafômetros descalibrados para menos, no intuito de aprovar no teste tudo quanto era bêbado, mesmo aqueles beirando o coma alcoólico. A engrenagem da quadrilha era toda financiada por grandes marcas de bebidas destiladas e fermentadas. Com todo mundo passando no teste, a confiança dos cachaceiros nos bafômetros complacentes aumentava – junto com o consumo, naturalmente.

A repercussão foi enorme no dia em que fizemos o flagrante. Deu até Jornal Nacional. Todos do nosso grupo foram entrevistados, e dias depois fomos condecorados com medalhas de bravura. Fechamos uma churrascaria na Marginal pra comemorar, bebemos além da conta e, ironia dos ironias, fomos pegos numa blitz de bafômetro. Em fila indiana e trançando as pernas para passar pelo aparelho, nenhum de nós estava em condições de explicar ao pessoal da Patrulha Rodoviária que éramos guardas também, o que poderia nos dar a prerrogativa de escapar do exame. A sorte é que os bafômetros eram do lote falsificado e fomos embora felizes e ziguezagueando, tirando fina de pedestres, ônibus, postes e muretas de concreto.

É, meu querido. Bons e bucólicos tempos, em que perseguíamos quadrilhas que mexiam com milhões. Pobres e minguados milhõezinhos. Dinheiro de pinga, se comparado aos bilhões de hoje. E pinga tão fraquinha que bafômetro nenhum pegava.

*Esta é uma obra de ficção.
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